A CRIAÇÃO DE JACARÉS EM FAZENDAS NO PANTANAL ATENDE A INTERESSES ECONÔMICOS (PELE/COURO) E CONSERVACIONISTAS


Saiba quais espécies  são criadas legalmente no Pantanal, como é o manejo (reprodutores, coleta/ incubação, recria/engorda e abate), o que se comercializa além da carne, cuidados veterinários e por que existe interesse econômico/conservacionista.

1) Quais jacarés existem no Brasil :

No Brasil existem seis espécies de crocodilianos (todas “jacarés”, não há crocodilos verdadeiros em vida livre por aqui):

  • Caiman yacare (jacaré-do-pantanal / yacare)

  • Caiman crocodilus (jacaretinga / jacaré-tinga)

  • Caiman latirostris (jacaré-de-papo-amarelo)

  • Melanosuchus niger (jacaré-açu)

  • Paleosuchus palpebrosus

  • Paleosuchus trigonatus.

2) Quais espécies são criadas em fazendas no Pantanal

A espécie mais importante para o sistema produtivo do Pantanal é Caiman yacare (o “jacaré-do-Pantanal”). Em criadouros autorizados também aparecem C. crocodilus, C. latirostris e M. niger em diferentes regiões/ sistemas — mas no Pantanal o foco comercial histórico e atual é largamente o C. yacare. A criação comercial e o manejo são regulamentados pelo IBAMA (normas e procedimentos para criadouros, marcação e comércio). 

3) Manejo reprodutivo — matrizes e reprodutores:

  • Origem dos reprodutores: matrizes e reprodutores em criadouros devem ser cadastrados e preferencialmente provenir de criadouros autorizados; em alguns casos órgãos autorizam transferência de animais apreendidos para criadouros. Há regras para marcação e controle individual. 

  • Ciclo reprodutivo natural: no Pantanal a reprodução ocorre no fim da estação seca / início das cheias; fêmeas constroem ninhos e depositam dezenas de ovos (variável). Estudos e protocolos de manejo exploram tanto retirada de ovos para incubação artificial quanto “ranching” (coleta controlada de ovos na natureza seguida de criação em cativeiro). 

4) Incubação dos ovos (artificial e temperada)

  • Incubação artificial é prática comum em criadouros: temperaturas controladas em incubadoras dão alta taxa de eclosão quando bem manejadas (estudos reportam eclodibilidade elevada em incubação controlada). 

  • Temperatura controla o sexo: em C. yacare (como em muitos crocodilianos) a temperatura de incubação influencia fortemente a razão sexual — temperaturas mais baixas tendem a produzir mais fêmeas e temperaturas mais altas mais machos (valores de referência aparecem em trabalhos técnicos; por exemplo ~31–31,5 ºC é uma zona crítica). Portanto criadouros que usam incubação artificial podem modular razão sexual conforme necessidade. 

  • Duração da incubação: varia com temperatura, mas para C. yacare relatos comuns indicam ~60–80 dias dependendo do protocolo/temperatura; muitos trabalhos citam valores na faixa de 70–80 dias em condições naturais/controle. 

5) Recria, engorda e tempo até abate

  • Recria inicial: filhotes saem da incubadora e passam por fases de cria em estufas/ viveiros, com alimentação controlada (peixes, rações, subprodutos proteicos conforme fase).

  • Tempo até abate: em fazendas comerciais do Pantanal o tempo médio de engorda para abate costuma ficar entre 18 e 24 meses (há variação conforme objetivo de peso e sistema), sendo que produtores relatam pesos de abate na faixa de ~8–12 kg (existem protocolos que trabalham com animais maiores dependendo da espécie e do mercado). Alguns estudos e relatos técnicos mostram animais abatidos aos 14–26 meses em condições comerciais. 

  • Ambiente: filhotes/juvenis frequentemente são mantidos em tanques/ viveiros dentro de estufas nos primeiros meses e depois em viveiros externos conforme o clima; manejo de densidade, alimentação e higiene é crítico para desempenho.

6) Partes comercializadas e mercado

  • Couro (pele): é o produto de maior valor agregado — peles processadas (couro) entram na cadeia de curtumes e indústria de artigos de luxo (calçados, bolsas, acessórios). No Brasil o comércio legal exige lacres e documentação que acompanham cada pele/animal (controle IBAMA/CITES conforme destino). 

  • Carne: cortes de carne (principalmente cauda/ lombar) são consumidos e há mercado interno e nichos externos; carne de jacaré é descrita como magra e com perfil nutricional interessante, utilizada fresca, congelada e processada. 

  • Outros subprodutos: gorduras (óleo), farinhas proteicas para ração/ pet food, restos para subprodutos alimentares/industrialização; alguns resíduos são usados para ração animal ou processamento industrial dependendo do aproveitamento da fazenda/indústria. 

7) Rotina sanitária e cuidados veterinários

  • Vacinas: não existe um esquema generalizado de “vacinação de rotina” para jacarés como há em bovinos/aves — as necessidades variam e muitos problemas são parasitários ou bacterianos. O manejo sanitário em criadouros foca em biosegurança, controle de parasitas (endos e ectoparasitas), quarentena de novos reprodutores, alimentação segura e monitoramento de doenças. Protocolos de abate e higiene (PSO) devem ser cumpridos em frigoríficos de jacaré. 

  • Veterinária: veterinários especializados em fauna/crocodilianos fazem monitoramento (peso, crescimento), tratamentos antiparasitários, manejo de feridas/infecções e controle sanitário nas instalações. É comum também análise de mortalidade, controle de qualidade da água, nutrição adequada e boas práticas de manejo para reduzir estresse e doenças.

8) Por que criar jacarés é interessante (vantagens e controvérsias)

  • Econômico: cadeia com couro de alto valor e carne com demanda em mercados específicos torna a atividade potencialmente rentável (desde que com escala e mercado garantido). O couro, em especial, agrega muito valor por peça. 

  • Conservação sustentável (quando bem regulado): sistemas de ranching (coleta controlada de ovos na natureza + criação em cativeiro) foram usados em programas que conciliam uso econômico e conservação, reduzindo caça ilegal e incentivando a preservação de habitats por parte de comunidades locais — mas depende de fiscalização, transparência e cumprimento das cotas e normas. 

  • Riscos/controversas: sem controle pode haver captura ilegal, lavagem de peles, impactos ao estoque selvagem; por isso as normas do IBAMA, CITES e fiscalização são centrais.

9) Pontos práticos e curiosidades rápidas

  • Controle documental: cada pele de origem legal deve estar acompanhada por lacre e documentação que garantem a origem (IBAMA/CITES). 

  • Sexo dos filhotes pode ser “programado” em incubadora ajustando a temperatura — ferramenta usada por criadores; isso é muito sensível e exige controle técnico. 

  • Exportação: o comércio internacional de peles é regulado por CITES (muitas espécies neotropicais estão em Apêndice II) e depende de autorizações. (ver legislação aplicável para cada caso).

Comentários

  1. A cadeia com couro de alto valor e carne com demanda em mercados específicos torna a atividade potencialmente rentável.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Nossa intenção é proporcionar aos leitores, uma experiência atualizada sobre os fatos globais que possam ser discutidos
e possam provocar reflexões sobre o modelo de sustentabilidade
que desejamos adotar para garantir agora e no futuro a qualidade
de vida para todas as espécies da Terra.