Chamo de Natal dos pirilampos — ou dos vagalumes — porque a luz delicada que esses pequenos insetos produzem me devolve, como um sopro de eternidade, a lembrança de vinte e dois anos atrás. Naquela época, o terreno recém-adquirido no condomínio Sonho de Vida ainda repousava quase intocado. À noite, entre arbustos simples e o silêncio da terra, surgiam eles: pontos vivos de luz, piscando como se o próprio chão respirasse estrelas. Foram esses vagalumes o primeiro sinal, o marco invisível, do sonho que ali começava.
Com o tempo, o sonho ganhou forma: uma casinha aconchegante de madeira, uma grande varanda aberta para o gramado, os coqueiros-anões alinhados como sentinelas suaves, e mais adiante, os portões — o social e o da garagem — guardando o cotidiano que viria. A vida floresceu, as casas surgiram na rua, as luzes artificiais se multiplicaram… e, aos poucos, os pirilampos deixaram de aparecer, especialmente no Natal.
Mas eles nunca partiram de verdade.
Hoje, na véspera natalina, quando a noite cai mansa e acendo o pisca-pisca em forma de cascata, preso aos alicerces da varanda, vejo novamente aqueles animaizinhos. As lâmpadas minúsculas tremulam como outrora tremulavam os vagalumes, e a memória acende o que o tempo não conseguiu apagar. As estrelas, silenciosas testemunhas dessa noite santa, parecem se inclinar para ouvir. A família reunida, o riso partilhado, o amor presente — tudo aquilo que um dia foi apenas sonho, agora pulsa em realidade.
É nesse instante que o Natal se revela por inteiro. Não apenas nas luzes, nos enfeites ou nas lembranças, mas no sentido mais profundo: o nascimento do Menino Jesus como convite eterno à bondade, à simplicidade e ao amor. Assim como os pirilampos, que iluminam sem fazer ruído, que os homens de bem aprendam a iluminar o mundo com gestos pequenos, porém verdadeiros.
E que, mesmo quando não os vemos mais, nunca esqueçamos: há luzes que continuam vivas dentro de nós.

Aos poucos, os pirilampos deixaram de aparecer, especialmente no Natal, mas eles nunca partiram de verdade, a memória acende o que o tempo não conseguiu apagar.
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