O PRÊMIO NOBEL DE QUÍMICA YAGHI O. É O NOVO PESQUISADOR DA CHINA EM ENGENHARIA DE NOVOS MATERIAIS POR IA.


Omar M. Yaghi é um dos grandes nomes da química dos materiais contemporânea. Seu trabalho tornou-se famoso principalmente pelo desenvolvimento dos chamados MOFs — Metal-Organic Frameworks, ou estruturas metal-orgânicas.

São materiais construídos como se fossem uma espécie de arquitetura molecular:

  • átomos ou agrupamentos metálicos funcionam como nós;
  • moléculas orgânicas funcionam como conectores;
  • o resultado é uma estrutura extremamente porosa, com enormes áreas superficiais internas.

Uma quantidade muito pequena de um MOF pode possuir uma área interna gigantesca, comparável, em determinadas estruturas, a campos esportivos compactados em escala microscópica. Esses materiais podem ser projetados para capturar, separar, armazenar ou liberar moléculas específicas.

Onde isso se torna revolucionário?

Imagine uma espécie de esponja molecular inteligente.

Dependendo de sua arquitetura, ela pode ser desenvolvida para:

  • capturar dióxido de carbono;
  • armazenar hidrogênio;
  • separar gases industriais;
  • retirar contaminantes;
  • capturar água presente no ar;
  • participar de processos catalíticos;
  • auxiliar no desenvolvimento de sensores e novos dispositivos.

Uma das aplicações mais fascinantes associadas ao trabalho de Yaghi é justamente a extração de água da atmosfera.

Em princípio, determinados materiais porosos podem capturar moléculas de água presentes no ar e liberá-las posteriormente mediante aquecimento ou variações ambientais. Para regiões áridas, essa linha de pesquisa pode representar uma alternativa tecnológica extremamente importante.

E onde entra a Inteligência Artificial?

Aqui está um dos aspectos mais interessantes para o futuro da ciência.

O problema é que existem milhões — talvez virtualmente incontáveis combinações possíveis — de estruturas químicas que poderiam formar novos materiais.

O método tradicional seria:

imaginar um material → sintetizá-lo → testá-lo → verificar se funciona.

Isso pode levar anos.

A IA está começando a mudar esse processo para algo mais parecido com:

definir o problema → explorar computacionalmente milhões de estruturas → prever quais possuem as propriedades desejadas → sintetizar apenas os candidatos mais promissores.

É uma verdadeira mudança de paradigma.

Por exemplo, um pesquisador poderia perguntar:

“Que estrutura molecular teria maior capacidade de capturar CO₂, mas com menor gasto energético para liberar o gás?”

Sistemas computacionais e modelos de IA podem explorar enormes espaços químicos e selecionar candidatos promissores antes que o químico entre no laboratório.

A IA, portanto, não substitui o cientista. Ela pode funcionar como uma espécie de instrumento intelectual de prospecção, permitindo explorar territórios químicos praticamente impossíveis de serem investigados apenas por tentativa e erro.

O conceito mais fascinante: materiais feitos sob encomenda.

A grande revolução associada a Yaghi é a ideia de química reticular (reticular chemistry).

Em vez de simplesmente descobrir um material existente, o cientista procura construir deliberadamente uma arquitetura molecular com determinada função.

É quase como trabalhar com blocos de montar:

Qual metal utilizar?
Qual molécula orgânica será o conector?
Qual será o tamanho dos poros?
Que molécula deverá entrar?
Qual deverá ser rejeitada?

A combinação entre química reticular + simulação computacional + inteligência artificial + robótica de laboratório poderá transformar profundamente a descoberta científica.

Podemos estar caminhando para uma era em que novos materiais serão projetados quase como hoje se projeta um circuito eletrônico.

A China percebeu algo fundamental: quem dominar a ciência dos materiais poderá dominar boa parte das tecnologias do século XXI.

Pense na quantidade de áreas que dependem diretamente de novos materiais:

ÁreaDependência de novos materiais
Energiabaterias, hidrogênio, células solares
Meio ambientecaptura de CO₂ e purificação
Medicinasensores, sistemas de liberação de medicamentos
Eletrônicasemicondutores e materiais quânticos
Agriculturasensores e materiais inteligentes
Espaçomateriais ultraleves e resistentes
Águafiltração, dessalinização e captura atmosférica

Por isso, pesquisadores capazes de criar plataformas inteiramente novas de materiais são extremamente estratégicos.

Vejo uma ligação muito interessante entre a pesquisa de Yaghi e a linha científica que estamos explorando em nossos projetos sobre fisiologia sensorial, inovação e fronteiras da ciência.

O século XX foi, em grande medida, o século da descoberta de partículas, genes e moléculas.

O século XXI pode ser o século da engenharia da matéria sob demanda.

A pergunta científica deixa de ser apenas:

“O que existe na natureza?”

e passa também a ser:

“Que tipo de matéria podemos projetar para resolver um problema?”

E a Inteligência Artificial acrescenta uma terceira pergunta:

“Entre bilhões de possibilidades, quais estruturas a inteligência computacional sugere que devemos investigar?”


Comentários

  1. Aqui está um dos aspectos mais interessantes para o futuro da ciência.

    Existem milhões — talvez virtualmente incontáveis combinações possíveis — de estruturas químicas que poderiam formar novos materiais.

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