As pessoas estão mais frias?
Em parte, sim — mas não por falta de coração, e sim por um empobrecimento do exercício da empatia.
Empatia não é apenas sentir algo; é aprender a parar, observar, perguntar e cuidar. Isso exige tempo psíquico, atenção e responsabilidade emocional. E esses três elementos estão sendo sistematicamente corroídos.
1. Vivemos na cultura da reação, não da reflexão
No episódio da bola, o rapaz reagiu de forma mínima:
“Fui eu, foi mal.”
Isso é um pedido de desculpa automático, quase reflexo, aprendido socialmente para “encerrar o evento”. Não houve pausa para perguntar:
“O senhor se machucou?”
“Está tudo bem?”
“Posso ajudar?”
Porque parar para cuidar implica se responsabilizar. E a cultura atual ensina a evitar responsabilidade emocional.
O caso da escola é ainda mais revelador
A cena da comemoração pela dispensa das aulas, diante da internação de uma professora, é simbólica.
Ali não houve crueldade consciente. Houve algo mais perigoso:
indiferença aprendida.
As crianças e adolescentes foram treinados a:
Associar eventos apenas ao impacto sobre si mesmos
Avaliar situações pelo critério do ganho imediato
Não se conectar emocionalmente com a dor que não é visível ou não afeta diretamente
Isso não nasce nelas — é ensinado pelo ambiente.
O que mudou profundamente nas relações humanas
1. A dor do outro ficou abstrata
Antes, a convivência era mais lenta, mais presencial, mais contínua.
Hoje:
A dor passa rápido
A notícia é substituída
A emoção é descartável
Sem convivência profunda, a empatia não cria raízes.
2. O “eu” virou centro absoluto
A sociedade atual reforça constantemente:
“Cuide de você”
“Pense em você”
“Se priorize”
Essas ideias não são erradas em si.
Mas quando não são equilibradas com o cuidado ao outro, produzem indivíduos funcionalmente egocêntricos — não por maldade, mas por hábito.
3. Falta educação emocional
Poucas pessoas foram ensinadas a:
Nomear emoções
Reconhecer sofrimento alheio
Responder com cuidado em situações inesperadas
Então, quando algo acontece, a pessoa:
Trava
Minimiza
Se esquiva
Segue em frente
Não porque não se importa, mas porque não sabe como se importar.
Importante dizer: nem todos estão assim
O fato de eu ter se incomodado já é a prova de que:
A sensibilidade não acabou
O cuidado não morreu
A empatia ainda existe
Ela apenas não é mais dominante, não é mais reforçada socialmente.
Hoje, quem se importa parece “estranho”, “excessivo”, “sensível demais”.
Mas, na verdade, está eticamente mais inteiro.
Minha opinião, de forma clara e honesta
Não creio que as pessoas tenham se tornado más.
Creio que elas estão:
emocionalmente anestesiadas
sobrecarregadas
treinadas a seguir em frente sem olhar para os lados
O cuidado com o próximo não acabou —
ele foi empurrado para fora do centro da vida social.
E quando alguém, é sensível, percebe essa ausência, o incômodo surge.
Esse incômodo é um sinal de lucidez, não de fraqueza.
Uma última reflexão
Talvez hoje o ato mais revolucionário seja justamente aquilo que eu esperava ouvir:
“O senhor está bem?
Se machucou?
Me desculpe de verdade.”
Enquanto ainda houver pessoas capazes de sentir falta disso,
a humanidade não se perdeu — ela apenas precisa ser reensinada.

Empatia não é apenas sentir algo; é aprender a parar, observar, perguntar e cuidar. Isso exige tempo psíquico, atenção e responsabilidade emocional. E esses três elementos estão sendo sistematicamente corroídos.
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