A HUMANIDADE PRECISA SER REENSINADA A COMPREENDER O SOFRIMENTO DO OUTRO.

Presenciei um fato ontem, no condomínio tem uma quadra e para a bola não escapar do alambrado gradeado ali está a proteção porque ao lado tem um espaço de parque como escorregas e balanços, os meninos jogando bola, um deles, o maior do grupo conseguiu chutar uma bola de couro por cima do alambrado e me acertou aquele bico na bola de couro na minha face e me atingiu como um tapa na cara, o rapaz saiu da quadra e vindo em minha direção falou fui eu foi mal, mas eu disse que não queria conversa, e fiquei pensando que as pessoas podiam ser diferentes, me perguntar, o senhor se machucou, está bem, me desculpe e logo pensei que o ato de cuidar do próximo ou se importar está acabando. lembrei-me de uma cena há anos atrás na escola, eu dava aula no penúltimo tempo da manhã, a coordenadora entrou na minha sala para dar um aviso; Turma após essa aula voc~es sairão dispensados por que a professora Vânia sofru um acidente e está internada no hospital, foi uma euforia, todos alegres , oba, houve comemoração, mas nenhum aluno perguntou se a professora estava fora de perigo ou qual era o seu estado de saúde , penso que as pessoas estão ficando frias e perderam aquela preocupação de cuidar do próximo ou se importar. Será que as pessoas estão insensíveis ou indiferentes a dor do outro.
Essa   reação não é exagero nem saudosismo: ela nasce de uma expectativa ética básica, que é o reconhecimento do outro como alguém que pode sofrer.
Vou fazer .uma leitura cuidadosa do que está acontecendo com as pessoas e com o tempo em que vivemos.

As pessoas estão mais frias?

Em parte, sim — mas não por falta de coração, e sim por um empobrecimento do exercício da empatia.

Empatia não é apenas sentir algo; é aprender a parar, observar, perguntar e cuidar. Isso exige tempo psíquico, atenção e responsabilidade emocional. E esses três elementos estão sendo sistematicamente corroídos.

1. Vivemos na cultura da reação, não da reflexão

No episódio da bola, o rapaz reagiu de forma mínima:

“Fui eu, foi mal.”

Isso é um pedido de desculpa automático, quase reflexo, aprendido socialmente para “encerrar o evento”. Não houve pausa para perguntar:

  • “O senhor se machucou?”

  • “Está tudo bem?”

  • “Posso ajudar?”

Porque parar para cuidar implica se responsabilizar. E a cultura atual ensina a evitar responsabilidade emocional.


O caso da escola é ainda mais revelador

A cena da comemoração pela dispensa das aulas, diante da internação de uma professora, é simbólica.

Ali não houve crueldade consciente. Houve algo mais perigoso:
👉 indiferença aprendida.

As crianças e adolescentes foram treinados a:

  • Associar eventos apenas ao impacto sobre si mesmos

  • Avaliar situações pelo critério do ganho imediato

  • Não se conectar emocionalmente com a dor que não é visível ou não afeta diretamente

Isso não nasce nelas — é ensinado pelo ambiente.


O que mudou profundamente nas relações humanas

1. A dor do outro ficou abstrata

Antes, a convivência era mais lenta, mais presencial, mais contínua.
Hoje:

  • A dor passa rápido

  • A notícia é substituída

  • A emoção é descartável

Sem convivência profunda, a empatia não cria raízes.


2. O “eu” virou centro absoluto

A sociedade atual reforça constantemente:

  • “Cuide de você”

  • “Pense em você”

  • “Se priorize”

Essas ideias não são erradas em si.
Mas quando não são equilibradas com o cuidado ao outro, produzem indivíduos funcionalmente egocêntricos — não por maldade, mas por hábito.


3. Falta educação emocional

Poucas pessoas foram ensinadas a:

  • Nomear emoções

  • Reconhecer sofrimento alheio

  • Responder com cuidado em situações inesperadas

Então, quando algo acontece, a pessoa:

  • Trava

  • Minimiza

  • Se esquiva

  • Segue em frente

Não porque não se importa, mas porque não sabe como se importar.


Importante dizer: nem todos estão assim

O fato de eu ter se incomodado já é a prova de que:

  • A sensibilidade não acabou

  • O cuidado não morreu

  • A empatia ainda existe

Ela apenas não é mais dominante, não é mais reforçada socialmente.

Hoje, quem se importa parece “estranho”, “excessivo”, “sensível demais”.
Mas, na verdade, está eticamente mais inteiro.


Minha opinião, de forma clara e honesta

Não creio que as pessoas tenham se tornado más.
Creio que elas estão:

  • emocionalmente anestesiadas

  • sobrecarregadas

  • treinadas a seguir em frente sem olhar para os lados

O cuidado com o próximo não acabou —
ele foi empurrado para fora do centro da vida social.

E quando alguém, é sensível, percebe essa ausência, o incômodo surge.
Esse incômodo é um sinal de lucidez, não de fraqueza.


Uma última reflexão

Talvez hoje o ato mais revolucionário seja justamente aquilo que eu esperava ouvir:

“O senhor está bem?
Se machucou?
Me desculpe de verdade.”

Enquanto ainda houver pessoas capazes de sentir falta disso,
a humanidade não se perdeu — ela apenas precisa ser reensinada.


 

Comentários

  1. Empatia não é apenas sentir algo; é aprender a parar, observar, perguntar e cuidar. Isso exige tempo psíquico, atenção e responsabilidade emocional. E esses três elementos estão sendo sistematicamente corroídos.

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